Eu sempre consigo sentir quando alguém me abraça de olhos abertos. Também sei quando é um abraço que vai durar apenas alguns dias, e quando pode durar anos.
O valor de um abraço pode ter um valor muito mais significativo e invariável, do que um beijo muito bem beijado. Simplesmente porque beijos, com o passar do tempo vão perdendo a graça, e acabam tornando-se apenas boas lembraças de um passado, que não volta mais.
O abraço, é um tipo de enlace consolador, que te faz flutuar, te fazendo areditar que tudo pode ficar cada vez melhor. Te faz acreditar que você nunca está sozinho e que por algum motivo tem alguém, exatamente ali, te calcionando como um velcro virgem, que nem costurado ainda está.
Eu vou contar uma pequena história de uma mulher que foi presa, por roubar um pequeno e insignificante travesseiro de uma loja.
Ela tinha seus 32 anos de idade, e trabalhava com a faxina dos banheiros de uma loja de conveniências, próxima à estrada de um interior de SP. Seu nome era Angélica, era solteira e não acreditava no amor.
Angélica perdera seus pais ainda na adolescência, e sua vida desde o acidente, havia sido muito difícil. Quiçá, a partir da pior perda que pudesse ter em toda sua vida, Angélica aprendera a controlar seus sentimentos de forma impassível, com objetivo de nunca mais sentir a dor que sentiu naquela tarde chuvosa de uma sexta feira, naquela mesma estrada onde trabalhara durante anos.
Sempre que ia trabalhar, sem querer acabara por escutar muitas histórias. Banheiro feminino sempre foi uma oca para a fofoca, para o desabafo, segredos mais íntimos, sensações mais extraordinárias e muita... muita traição.
Certo dia, Angélica limpava o espelho do banheiro feminino, e acostumada a nunca ser notada avistou duas mulheres, de aparentemente 25 anos, muito bem arrumadas, cheirosas e ricas. Uma loira e uma morena.
Mas espera aí, um delas estava chorando, com o rosto muito inchado e com uma expressão fatigada.
Ora, muitas mulheres entravam naquele banheiro chorando, e a maioria das vezes por motivos infantis, petulantes e absurdamente ridículos. Mas aquela moça, a loira, não chorava por mais um mero motivo.. chorava por ter perdido o filho, o único filho. Ela estava tão desnorteada que não sabia para onde olhar. Seus olhos já estavam desérticos e certamente o que passara pela sua cabeça era a vontade de ter ido no lugar de seu filho. Era impressionante a maneira que suas linhas faciais se vergavam de forma tão idónea.
Angélica conseguia sentir, tudo o que havia sentindo, no dia em que perdeu sua família. E por um momento único se igualou à moça bem arrumada e bem sucedida. Seu desejo ante aquela cena, dolorosa e insípida, era nada mais nada menos, que chegar diante ela, e lhe dar um abraço. Não sabendo o porque de pensar aquilo, Angélica lembrou de uma cena de quando tinha apenas 4 anos.
Sempre que tinha pesadelos, acordava chorando em seu quarto escuro, e seu pai sempre que ouvia o grito da menina, pegara um travesseiro bem fofo e ia ao encontro de sua pequena Angélica. Naquele momento, que ele chegara em seu quarto, parecia que tudo ficara bem, que toda aquela escuridão ia embora, com apenas um travesseiro fofo e o abraço forte e afetuoso de seu pai.
No final de seu expediente, Angélica ira para sua casa, com aquela cena reprisando várias vezes em sua mente, e naquele momento sua ficha por fim caiu, que ela estara alí naquela estrada, desérta e fria; sozinha. Não tinha mais família desde seus 15 anos e nem se preucupara em formar outra. Já estava com seus 32 anos e nunca havia se apaixonado, nunca havia tido um filho, ou se quer um abraço.
O desespero e a sua auto-opressão lhe faz largar tudo o que tem no acostamento da longa estrada que seguia, e a faz voltar para a convêniência onde trabalhara. Suas mãos tremiam como um ansião com parckson, e seus olhos começaram a encherssem de lágrimas, muitas lágrimas. Angélica agarrara o melhor e mais caro travesseiro que havera na loja, e sai correndo como se nada nenhum ato ou ninguém fosse maior do que a vontade de se sentir livre com o começo de noite iluminado apenas com o luar.
Enfurecido o dono da loja saí aos gritos, atrás da pobre faxineira.
"PEGUEM ESSA LADRA, PEGUEM!!"
Quiçá, Angélica nem os ouvisse, ela não pára de correr e não atendera aos seguranças.
Nunca foi diferente, nunca no Brasil algum pobre foi exilado de ser considerado um marginal, por furtar coisas aleatórias. Que talvez nem pudessem ser ouvidos, ou pudessem se justificar pelo ato.
O final de Angélica foi o mesmo de muitas pessoas aqui. XADREZ!
Embora Angélica não ficara lá por muito tempo, aquele momento que ela pode ficar sozinha, em um lugar escuro e amedrontador. Ela tinha tudo que ela sempre procurara para se sentir melhor, o luar e seu travesseiro, aquele de muitos anos atrás, que lhe fazia lembrar que apesar de estar sozinha, a lembrança e a esperança de um futuro promissor estavam alí, no seu coração, colado ao seu doce e confortante travesseiro, junto a um abraço.
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